Processo Luto diante da Morte

 

Para Freud (1917), o luto de modo geral é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante.

Esta reação ocorre em nível psicológico podendo ter agravantes físicos como conseqüência da debilidade emocional. Geralmente inicia-se com o estado de choque e atordoamento, caracterizando-se pela constante lembrança do ente que se foi e constância do estado de tristeza e choro.

Parkes (1998) refere-se muito bem a isto, dizendo que aqueles que se preocupam com os efeitos do luto têm de levar em consideração os muitos fatores possíveis quando tentam explicar as diferenças entre as respostas das pessoas a esse acontecimento. O pesar do luto pode ser forte ou fraco, breve ou prolongado, imediato ou adiado. Seus aspectos particulares podem ser distorcidos e os sintomas que geralmente causam poucos problemas tornam-se grandes fontes de sofrimento.

Ainda, de acordo com Viorst (2005) Somos indivíduos reprimidos pelo proibido e pelo impossível, que procuram se adaptar a seus relacionamentos extremamente imperfeitos. Vivemos de perder e abandonar, e de desistir. E mais cedo ou mais tarde, com maior ou menor sofrimento, todos nós compreendemos que a perda é, sem dúvida, “uma condição permanente da vida humana”.

Segundo Kovács (1992), para que o processo de luto possa ocorrer, é necessário realizar um trabalho desidentificação e desinvestimento de energia, que permita a introjeção do objeto perdido na forma de lembranças, palavras e atos, e a possibilidade de investir a energia em outro objeto.

O processo é longo, alterando-se em lembranças alegres e tristes, em falta e interesse pelo mundo exterior e momentos pontuais de realização. É algo que só se altera com o passar do tempo, pois há a tendência natural de gradualmente minimizar os sentimentos de tristeza e ocorrer o resgate pela vida. Neste momento, a pessoa que se foi já se torna uma lembrança e, para os que ficaram a tendência é de voltar à normalidade da vida e até desenvolver novas ligações afetivas.

Freud (1917), o luto profundo, a reação à perda de alguém que se ama, encerra o mesmo estado de espírito penoso, a mesma perda de interesse pelo mundo externo – na medida em que este não evoca esse alguém -, a mesma perda da capacidade de adotar um novo objeto de amor (o que significaria substituí-lo) e o mesmo afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre ele.

 Nestas fases do processo de luto, a pessoa precisa de um bom amparo profissional e das pessoas queridas que convivam com ela, para que todo o processo seja conduzido de forma a não deixar seqüelas psicológicas ou conduzir à introversão excessiva.

Para Viorst (2005), a primeira fase desse processo, tenha a perda sido antecipada ou não, é de “choque, apatia e uma sensação de descrença”. “Isto não pode estar acontecendo!” “Não, não é possível!” talvez choremos e nos lamentemos em voz alta; talvez fiquemos sentados em silêncio: talvez períodos de dor se alterem com períodos de atônita incompreensão. Mas o fato de que alguém que amamos não existe mais no tempo e no espaço não é ainda uma realidade, está além do que podemos aceitar.

Kovács (1992) ressalta que a expressão de sentimentos nessas ocasiões é fundamental para o desenvolvimento do processo de luto. No entanto as manifestações diante da perda e do luto sofreram alterações no decorrer dos tempos.

Já para Freud (1917), é notável que esse penoso desprazer seja aceito por nós como algo natural. Contudo, o fato é que, quando o trabalho do luto se conclui, o ego fica outra vez livre e desinibido.

O que se vê é que a relação que se tem com a morte é muito delicada, principalmente quando se dá com um ente muito próximo da pessoa, situação em que o vínculo amoroso é mais intenso. A proximidade que se tem com a pessoa moribunda reflete profundamente no modo como se lida com o processo de luto.

Para Parkes (1998), a reação dos pais à morte de um filho adulto em acidentes de trânsito foi estudado por Shanfield e seus colegas (1984a e 1985). Embora de maneira geral os pais concordem que a morte de um filho é mais dolorosa do que a morte de um irmão ou dos pais, aqueles que perderam um filho adulto e o cônjuge não consideraram que uma era mais dolorosa do que a outra. Citando Lundin, Parkes (1998), completa que em um estudo longitudinal, encontrou mais evidências de choro e luto persistentes em pais que haviam perdido filhos do que entre viúvos e viúvas, mas este último grupo apresentou tendências maior a continuar pensando na pessoa morta e a expressar sentimentos de culpa.

Viorst (2005), embora a morte esperada nos abale menos do que aquela para a qual não estamos preparados, embora no caso de uma doença fatal, o maior choque nos atinja quando sabemos o diagnóstico da doença e embora, algum tempo antes da morte da pessoa amada, façamos uma preparação de “luto antecipado”, no começo é sempre difícil – a despeito de toda a preparação – assimilar a idéia da morte da pessoa amada.

A morte é uma certeza na vida que se reconhece mais com a mente do que com o coração. Geralmente, enquanto o intelecto reconhece a perda, o resto do corpo continua tentando arduamente negar o fato.

Buscando entender melhor o processo de luto, como um conjunto de reações diante de uma perda, Browlby (1985) cita quatro fases do luto:

1. Fase do choque que tem a duração de algumas horas ou semanas e pode vir acompanhada de manifestações de desespero ou de raiva.

2. Fase de desejo e busca da figura perdida, que pode durar também meses ou anos.

3. Fase de desorganização e desespero.

4. Fase de alguma organização.

Na fase de choque, o indivíduo pode parecer desligado, embora manifeste um nível alto de tensão. Ocorrem expressões emocionais intensas, ataques de pânico e raiva. A companhia de outras pessoas é muito importante neste período. As outras fases vão ocorrendo ao longo do tempo, caracterizando-se por uma rememoração da pessoa que morreu, busca de respostas para o ocorrido, desespero, dentro outras situações que abalam psicologicamente quem está vivenciando o luto. Isto perdura até que se inicie o processo de aceitação da morte do ente querido e começa, então, a fase do retorno à vida, à busca de novos relacionamentos capazes de reduzir a dor da perda.

Viorst (2005), começando pelo choque e passamos pela fase de dor aguda, seguimos para o que se chama “o final” do luto. E embora algumas vezes choremos ainda, tenhamos ainda saudades, esse fim significa um grau importante de recuperação, aceitação e adaptação.

Freud (1917) já relata este desapego à vida, dizendo que no luto a inibição e a perda de interesse são plenamente explicadas pelo trabalho do luto no qual o ego é absorvido. No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio.

Alguns pesquisadores desenvolveram diversos trabalhos, alguns concluindo que este processo é mais intenso e doloroso para as mulheres. Segundo Parkes (1998), de uma forma ou de outra, as mulheres sempre saem da experiência de luto com mais problemas psicológicos do que os homens.

Portanto, embora em uma fase de aceitação e de novas buscas, a saudade, a tristeza podem retornar, tornando o processo de luto gradual e nunca totalmente concluído. Alguns buscam novos relacionamentos, como forma de dar continuidade à vida. Em algumas fases do processo de luto podem acontecer identificações como o morto, por exemplo, quando a pessoa se percebe fazendo coisas de que o outro gostava.

Para Viorst (2005), a lamentação por uma pessoa amada pode terminar em identificações construtivas. Mas, o processo geralmente é irregular. Pois quando morre uma pessoa que amamos podemos enfrentar essa morte sem conseguir enfrentá-la, ou ficar “presos” no processo da lamentação.

Este apego à lamentação, a negação contínua da morte é algo que não se tem como prever o tempo de duração. Varia muito dentre cada pessoa, do contexto social e das circunstâncias elementares do óbito. Kovács (1992) diz que o tempo de luto é variável e em alguns casos podem durar anos. Pode-se dizer que em alguns casos o processo de luto nunca termina. Com o passar do tempo, uma profunda tristeza, um desespero e um desânimo tomam conta, quando se recorda o morto, embora estes sentimentos ocorram com menos freqüência. O traço mais permanente no luto é um sentimento de solidão.

Freud (1917) a melancolia, portanto, toma emprestado do luto alguns dos seus traços e, do processo de regressão, desde a escolha objetal narcisista para o narcisismo, os outros. É por um lado, como o luto, uma reação à perda real de um objeto amado; mas acima de tudo isso, é assinalada por uma determinante que se acha ausente no luto normal ou que, se estiver presente, transforma este em luto patológico.

Esta patologia pode ser muito intensa em pessoas mais velhas, as quais têm maior tendência a apresentar dificuldades para lidar com a situação de perda.

Parkes (1998), diz que uma explicação possível para os problemas psicológicos em conseqüência do luto na idade avançada é a multiplicidade de perdas que ocorrem nesse período.

Citando Raimbault, Kovács (1992), diz a fim de que se realize o processo de luto é necessário:

1. Uma desidentificação e um desligamento dos sentimentos em relação morto.

2. A aceitação da inevitabilidade da morte.

3. Quando for possível, encontrar um substituto para a libido desinvestida.

Se não tiver ocorrido este desligamento do objeto perdido, em cada nova relação se buscará coisas da anterior, com conseqüências desastrosas.

Freud (1917) em primeiro lugar, também o luto normal supera a perda de objeto, e também, enquanto persiste, absorve todas as energias do ego. Também chama a nossa atenção para o fato de que nem sequer conhecemos os meios econômicos pelos quais o luto executa sua tarefa.

Outro fator que tem forte influência na intensidade do luto é a forma pela qual a pessoa morreu. Normalmente, as mortes trágicas e inesperadas geram maior dificuldade de aceitação e são carregadas de maior sentimentalismo em relação à perda.

Parkes (1998), fala que mortes repentinas e inesperadas, perdas múltiplas, mortes violentas e mortes envolvendo ação humana (suicídio, assassinato etc.) representam um risco especial para a saúde mental, mesmo na ausência de vulnerabilidade.

Browlby (1985) levanta alguns aspectos, que podem afetar o processo de luto e que talvez facilitem a evolução de um quadro patológico. Ele chama atenção para cinco pontos importantes:

1. Identidade e papel da pessoa que foi perdida.

2. Idade e sexo do enlutado.

3. As causas e circunstâncias da perda.

4. As circunstâncias sociais e psicológicas que afetam o enlutado, na época e após a perda.

5. A personalidade do enlutado, com especial referência a sua capacidade de amar e responder a situações estressantes.

Cada uma destas características pode facilitar ou dificultar o processo de luto. Tem-se que levar em conta as características de personalidade do enlutado antes da perda: se era uma pessoa centrada, equilibrada, ou se era frágil ou desestruturada. A perda é considerada como uma crise e que será enfrentada com as características que a pessoa já possuía.

Para Parkes (1998) mesmo quando há sinais indicadores de morte incipiente não é fácil preparar-se adequadamente para o luto. Parte da dificuldade está no fato de, mesmo quando as pessoas sabem que o outro está morrendo, tenderem a suprimir seu luto antecipatório com medo de magoar o moribundo.

Já Kovács (1992), diz que em casos de morte repentina, quando não há informações de como ocorreu, pode haver dificuldades no processo de luto consciente. Podem se manifestar sentimentos de culpa muito fortes, caso a morte tenha ocorrido num acidente, em que o enlutado também estava presente e sobreviveu. Às vezes este fato conduz a ideações de acompanhar o morto.

Parkes (1998), os que sofreram perdas inesperadas ou precoces estão sempre envolvidos com lembranças da pessoa que morreu e, se a morte tiver sido de um tipo particularmente doloroso e testemunhada pelo enlutado, as lembranças serão dolorosas, conforme os critérios do Distúrbio do Estresse Pós-Traumático. Lembranças dolorosas e persistentes parecem impedir que surjam lembranças felizes e, desta forma, interferem com o trabalho do luto.

Além disto, podem ocorrer manifestações patogênicas de ambivalência e culpa. Este processo pode estar inconsciente e os sentimentos de amor e ódio alternando-se. O ódio entra em ação, tirando prazer do sofrimento pelas degradações. Este ódio, que será dirigido contra o outro, passa a atuar internamente, como uma autopunição. É um processo de vingança contra o objeto perdido, que passa a ser torturado pelo sofrimento da pessoa. Esta ocorrência é muito comum nos processos de separação.

Ainda, a personalidade do indivíduo pode interferir no processo de luto. Conforme Parkes (1998), outro determinante importante da magnitude do luto são os fatores de personalidade derivados da carga genética e das experiências prévias do individuo.

No processo normal de luto, a tendência natural é que o indivíduo introverta-se e buscando reinstalar. Quando ocorre uma perda, o indivíduo sente que o seu mundo interno foi destruído.

Parkes (1998) define bem este processo ao dizer que o trabalho de luto é o processo de aprendizagem pelo qual cada mudança resultante é progressivamente compreendida (tornando real) e é estabelecido um novo conjunto de concepções sobre o mundo. Ninguém absorve de uma só vez a realidade de um evento tão importante como um luto.

Acredita-se que o trabalho psicoterápico, embora não obrigatório, pois não se trata sempre de um processo psicopatológico, pode auxiliar enormemente no processo de luto.


Autora: Poliana Luisa Sores de Camargos 

                Psicóloga CRP 04/29899 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BROWLBY, J. – Apego, perda e separação. São Paulo, Martins Fontes (1985)

 

FREUD, S. Luto e Melancolia. (1917), In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol, 44, Rio de Janeiro: Inago, 1974

 

PARKES, Colin Murray. Luto: estudos sobre a perda na vida adulta. Trad. de Maria Helena Bromverg. São Paulo: Summus, 1998.

 

VIORST, JUDITH. Perdas necessárias/ Judith Viorst (Tradução Aulyde Soares RodriguesI. – 4. Ed. – São Paulo: Editora Melhoramento, 2005.

 

KOVÁCS, M.J. A Morte e o desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992.