Histórico de Como o Homem Lida com a Morte

 

Desde criança, o homem já começa a aprender a se separar daquilo que gosta, iniciando a aprendizagem do que vem a ser as perdas. Mas, neste momento estas são ainda de caráter material, sendo inertes. A partir do momento em que se perde o primeiro ente querido, é que começa a despertar-se para a existência da morte. Começa, assim, o processo de conscientização do homem a respeito de seu próprio fim. Inicia-se o grande dilema de como lidar com este momento que será certo em algum momento da vida, marcando a perda de tudo aquilo que se conseguiu conquistar durante a existência, como os relacionamentos, o conhecimento e principalmente o corpo físico.

Esta certeza de um dia tudo terá fim, conduz o homem a afastar-se o máximo possível da idéia de morte, considerando esta sempre em relação ao outro e não a si mesmo. Geralmente esta negação vem acompanhada da angústia e do medo, sentimentos muito intrínsecos à idéia de morrer.

Segundo Morin (1970), são nas atitudes e crenças diante da morte que o homem exprime o que a vida tem de mais fundamental. A sociedade funciona apesar da morte, contra ela, mas só existe enquanto organizada pela morte, com a morte e na morte. Para a espécie humana, a morte está presente durante a vida toda e se faz acompanhar de ritos.

Desde as mais primitivas civilizações, já se utilizava sepulturas para os mortos, ato visto como uma forma de não abandonar as pessoas amadas, às vezes até mesmo ligadas à espiritualidade, à crença na imortalidade que acompanha as diferentes comunidades.

À medida que a sociedade se desenvolveu, o medo da morte passou a ser historicamente maior, pois houve um aumento em suas causas. Em sociedades primitivas, marcadas pelo individualismo, a morte não aterrorizava tanto como se faz atualmente. Historicamente esta evolução social e tecnológica conduziu o homem a um estado psicológico de negação da morte e de busca pela imortalidade.

Kovàcs (1992), já nos diz que A pertinência a um grupo inibe ou adormece a consciência de horror ligada à morte, enquanto que os rituais a serem realizados em conjunto facilitam a sua elaboração. O medo da morte é menor em sociedades primitivas, ou altamente agregadas, porque o grupo dá continência às necessidades individuais.

Assim, historicamente a aceitação ou não da morte está diretamente relacionada com o contexto cultural, com a segurança que o meio ambiente consegue transmitir ao homem. Antigamente, as mortes eram determinadas por causas certas, quando aconteciam, eram de modo já esperado pela vítima. Hoje são provocadas por inúmeras causas, algumas fora do conhecimento humano.

Mas, percebe-se que a morte é uma experiência necessária durante a existência do homem quando vista de forma absoluta. Relativamente pode ser analisada partindo-se dos inúmeros meios pelos quais o homem é por ela atingido, incluindo-se aqui as influências do meio no qual está inserido.

Reforçando isto, Kovàcs (1992) afirma que A morte domada é a morte típica da época medieval. O homem sabe quando vai morrer, por certos avisos, signos naturais ou por uma convicção interna. Os homens daquela época eram observadores de signos e, antes de mais nada, de si mesmo. Eles morriam na guerra ou de doenças e, portanto, conheciam a trajetória de sua morte.

A morte não se trata de um tema atual. É uma questão presente no contexto histórico da humanidade, manifestando-se das mais variadas formas e recebendo diversos entendimentos.

Para Maranhão (1985) o significado do fenômeno da morte não se esgota em sua dimensão natural ou biológica. Ela comporta, também, como qualquer fato da vida humana, uma dimensão social e, como tal, ela representa um acontecimento estratificado. Todos morrem – é certo -, contudo a duração da vida e as modalidades do fim são diferentes segundo as classes a que pertencem os mortos.

Na época medieval a morte era um grande momento de transição, de encontro com Deus. Por isto, era uma cerimônia festiva em que toda a família participava. Não se preocupava com a morte carnal, mas sim com a salvação espiritual.

Já na Idade Média, a morte passou a ser temida, pela sua imprevisibilidade, mas passou a ser vista como algo que podia ser domado. Surgia, então, a morte domada, presente início do Cristianismo. A boa morte era aquela anunciada, a que dava tempo ao moribundo de resignar-se das impurezas da alma e do corpo para ir ao encontro de Deus. A morte súbita era vista como indigna. Como cita Áries (1989), a morte então foi domesticada nas consciências. Completando, Lauwers (2002) fala que a morte foi esperada e reconhecida, até mesmo desejada.

Já no século XII surgia a morte de si mesmo, ou seja, ela começou a se tornar um momento mais individualista, no qual o arrependimento dos pecados antes de morrer passavam a ser mais importantes do que as boas obras realizadas em vida. Os cemitérios eram feitos ao lado das Igrejas, para que os mortos pudessem ficar próximos aos anjos.

Após este período, com a formação dos Estados Modernos (século XVI a XIX) vem o conceito da morte do outro, a qual enfatiza a dor das pessoas que ficam e não das que partem. Inicia-se o processo do culto saudoso ao que morreu. Os cemitérios já não são feitos mais ao lado das Igrejas, mas em recintos particulares, conseqüência do sentimento de propriedade individual da burguesia daquela época.

A partir de finais do século XIX, com o início da modernização de técnicas cirúrgicas, com o avanço tecnológico e o progresso científico, o homem passa a ter dificuldades em aceitar a morte, vendo-a como uma inimiga a ser combatida. Prolifera-se os campos de conhecimento que buscam dar maior longevidade ao ser humano, através de intervenções físicas ou psicológicas, buscando-se reduzir a vulnerabilidade do homem à morte, é o início da morte interdita.

Kübler-Ross (1997) descreve que são cada vez mais intensas e velozes as mudanças sociais, expressas pelos avanços tecnológicos. O homem tem se tornado cada vez mais individualista, preocupando-se menos com os problemas da comunidade.


Autora: Poliana Luisa Sores de Camargos 

                Psicóloga CRP 04/29899


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARIÈS, P. Sobre a História da Morte no Ocidente desde a Idade Média. Lisboa: Teorema, 1989.

 

LAUWERS, Michel. “Morte e mortos”. In: LE GOFF, Jacques & SCHIMTT, Jean-Claude (coord.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval II. São Paulo: Imprensa Oficial / EDUSC, 2002.

 

KOVÁCS, M.J. A Morte e o desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992.

 

KÜBLER-ROSS, Elizabeth. Sobre a morte e o morrer. 8ª edição. Martins Fontes, São Paulo, 1997.

MARANHÃO, Jose Luiz de Souza. Que é morte. Editora Brasiliense. São Paulo. 1985.

MORIN, E. O homem e a morte. Lisboa, Publicações Europa – América, 1970.